quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Brincadeiras da semana

"O que é breve e bom,
é duas vezes bom"
Hugh White


Gente, essa coisa de geléia,
a morte no fim como uma pedra,
na cabeça, terra sobre tera,
louça sanitária semi-enterrada,
de vez em quando uma flor.



******


Tocado displicentemente,
pairam no ar o jarro e a dúvida.
Aquele pêgo no ar:
Malabarismei?



*******



Terça-feira
Absolutamente mais um dia
E constatamos que a vida passa.



*******



E agora, senhoras e senhores, a poesia mais curta e mais profunda jamais vista:

"Cu"




*******


Poesia curta parece coito interrompido.
Um soneto pelo menos, meu amor,
enquanto eu tiro os sapatos.



*******



E já que falamos de soneto....


Tanto do meu estado me acho incerto,
que em vivo ardor, tremendo estou de frio,
sem motivo, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco, e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto,
do peito me sai um fogo, da vista um rio
agora espero, agora deconfio,
agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando,
numa hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos, não possa achar uma hora.

E se alguém me pergunta por que assim ando,
respondo que não sei, porém suspeito
que só porque vos vi, minha senhora.

Camões


*********

Diálogo:

- Quem Castrou Alves?
- Machado de Assis.
- Como ele castrou?
- Camões.
- ...
- Essa não é minha, Eça é de Queiroz.



**********


O soneto clássico tem essa forma, com a mesma quantidade de sílabas poéticas em cada verso (o que dá o "ritmo" dos versos), e com esse esquema de rimas. Essa forma não é usada à toa - é que fica fácil memorizar um soneto, funciona quase como uma canção. Tanto que esse aí de cima, eu não precisei abrir um livro para escrevê-lo - havia decorado uns 7 anos atrás, e não esqueci mais. Ao escrever, tive dúvidas, mas o interessante é que o próprio esquema do soneto ajuda a lembrar e tirar as dúvidas - se não der a rima ou o ritmo, não tá certo - e assim, acertando os detalhes, encontram-se as palavras, e refaz-se o soneto original.

Pode ser que eu tenha me enganado em alguma palavra, mas, se obedeci a métrica, o ritmo e as rimas, será que fará tanta diferença? Mas duvido que eu tenha achado outras soluções para um soneto genial desse.

Poesia feita e refeita, hoje - viva o repentista Camões.



********



"O que é bom,
que seja bom do tamanho que quiser.
Viva o exagero"
Katarina Tchitcholina


"Brincando também se faz filho"
Mãe


domingo, 26 de agosto de 2007

Poesia da Semana

Por acaso se encontra um bloco na rua.

Segue-se.

Cantam aquela que você gosta tanto,

você solta a garganta

e ela cai e se espalha pela rua,

escorre até as calçadas,

sobe pela parede das casas.

Na janela uma senhora sorri.


Você estranha,

pois não havia reparado antes

no desenho colonial

dos azulejos daquela balaustrada.


O batuque esquenta,

a bolsa da mão virou chapéu,

você perdeu as alpercatas,

a camisa virou uma capa.

Você molhou o bico

com os últimos dois reais da carteira.


Mas não são reais,

são mil-réis.


Agora você viu

que sua calça foi feita de saco de açúcar.

Esse domingo é muito mais domingo,

você pensa,

para quem trabalha forçado.


Perdura um nervosismo geral

de certa recente invasão holandesa.


Agora a cidade é assim:

escorre gente pela canaleta dos becos

na trilha semi-certa dos cordões,

francesas descem de carros negros

e se deslumbram das portas dos hotéis,

um rio limpo corre

dividindo a avenida central,

o poeta de chapéu escreve

no guardanapo do café,

ouve-se ao longe o acorde dissonante

da freada do bonde,

um sino repica ,

anuncia-se a quermesse,

se desfaz a novena,

renova-se o discurso,

e esquenta a função,

interrompida pela algazarra dos capoeiras monarquistas,

e tome cavalaria,

fujam para a roda do mato em volta.

É mesmo a sua cidade do seu país,

agora sim você reconhece.


Eis que surge a mascarada.


É claro que essa mascarada só pode

preferir brincar com você,

que veio do tempo das canções,

que nada quer,

tudo faz e não sabe quando vai,

não acha nada

mas está sempre acabando de se apaixonar.


E você canta,

dos seus olhos refletidos

em outros olhos pela

sua dela boca

canta,

você sabe

que não sabe

de quem boca é que

canta,

lábio-mar, rio cordão

por onde for é gente e mais gente sempre só se

canta.


Até que antes do primeiro risco vermelho aparecer no céu,

um risco vermelho

diante dos seus lábios

se desdobra

pelos lábios dela.


Se desfazem os cordões,

o rio volta a ser algo indizível.

Surge um shopping.


Agora,

só ano que vem.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Poesia da Semana

Boi pra lá

Boi pra lá,
boi pra cá.
Boi pra lá,
boi pra cá.
Dorme neném,
olha o pasto,
olha o rio,
olha o trem.

Boi pra lá,
boi pra cá.
Dorme neném,
olha o rio,
olha o trem,
olha o pasto.

Uma flor.
Outra flor.

Cor, ô, neném,
uma flor,
outra flor
e mais cem,
boi lá trem
rio mais flor
dorme pasto,
neném.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Poesias da Semana

Ela murmurou
um sonho
pra gente,
espremeu contradições
da sua garganta.

Deixou o quarto em seus olhos
à meia-luz...
entramos.
Roupas jogadas no tapete,
a voz deitada num colchão.

Seu ritmo era um contra-senso,
cabiam dezessete palavras em cada tecla
do piano que corria atrás dela.
Ela cantava ímpar.

E era exatamente o que a gente
precisava sentir:
essa força toda
de um instante sem nada,
essa meia-luz concentrada,
esse prato cheio de falta.

Tinha saliva naquelas palavras
a gente sentia a língua
que aqui e ali se esbarrava.

Uma meia de lã
calçando o pé do ouvido,
um cotonete amoroso.

Ela cantou
e em nós
doeu
gostoso.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

A Você

A você estas linhas
para escutar
na voz acetinada de um velho locutor
vinda no ruído molhado de chuva
de um rádio entrando no chiado
d´alguma sintonia.

A você (por que não?) esta poesia
que não pode perder o ritmo de contraponto
do naipe dos metais,
leia quase sem querer,
só porque talvez tenha lhe pego
num momento,
um daqueles momentos que é sempre
o momento que a gente quer ter.

Como quando o disco de vinil acaba
e a agulha insiste em transmitir o som
da última faixa apagada,
escute estas palavras
que fazem nada mais que
nos rodear,
na valsa que nunca acaba dos velhos bailarinos,
na voz de gramofone do cantor de balada
que parece tanto que realmente sofre.

A você, por fim,
que não acha nada,
que não duvida,
que não merece:
ouça o último fio desse momento simples,
e que seja tudo agora.
Que depois
a gente esquece.

terça-feira, 26 de junho de 2007

CLASSIFICADOS

Este Blog aposta no que realmente importa agora: o comércio!



ALUGA-SE uma infância, para morar dentro, feito a casa de boneca que a gente nunca teve. Na garagem, a bicicletinha vermelha. Dentro, aquelas nossas filhas de pano, de louça, de plástico, como se o amor puro de uma criança pudesse ter substância.
Aluga-se uma infância.



APARTAMENTO DUPLEX
Excelente vista. Esqueça o apartamento, na verdade, o que vale é a vista..
É tarde, e o dia inteiro vivido virou memória,
e essa memória faz com que esse inacreditável vermelho do céu
nos conte toda dor passada, toda alegria vivida.
É uma tarde que passa: assista.



MARIDO
Vende-se o milagre, 30 dias por mês repetido.
Vende-se a refelicidade, o reencontro, o renascido.
Vende-se você mesma, como novidade, mas repetido.
Vende-se o fim da solidão, a felicidade, o amor escolhido,
Vende-se o pecado repetido diariamente
mas que finalmente deixou de ser proibido.
Vende-se um marido.





PROMOÇÃO imperdível, senhora dona de casa:
adqüira MATURIDADE,
e empreste a seus filhos,
e doe a seu marido.
Se sobrar, jogue fora,
agora que ela acabou,
vá embora!




VENDO um dia-a-dia,
mas um dia de cada vez:
mude de idéia
de um dia pro outro
ou vire freguês!



FINANCIAMOS
pra você um silêncio,
pague ficando quieto
5 minutos por dia.

FINANCIAMOS
a tranqüilidade
que você espera afinal,
pague parando um pouco
a cada dia,
como um pequeno ritual.



TROCAMOS
Esta vontade de dizer
por essa outra de chorar.
Ninguém tem a perder:
a lágrima que escorre aí,
é beleza que nasce cá.
Se sobra algum choro acolá,
verso nunca faltará.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Poesias da Semana

Circular

Esta canção que escutamos agora
toca em todo lugar e a toda hora
no rádio sintonizado na dor
que compartilham os corações,
ouvindo esta canção,
que é muitas canções,
mas fala do mesmo peso
de todos os corações,
que são o único coração,
e choram pelo único amor
que todos amores são
- escutando esta canção agora.



Fórrôr

Empurramortecendo ombro à ombro
e dansuando de pobreleza,
todos no fórrôr,
todos no fórrôr esquentomando,
cantamargurando,
tremelicangulanamente.

Poispassou um mulherigo
entre dois machucarentes:
Trizsoslaiolharam-se...
Peixeirou à morte.
Repentânico!

Silensionde?