segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Poesia da Semana

Reciclomeça a vida.

Você não precisa nada,

só sua energia herólica.

Dessa merda de vida,

retire esterco e coragem.

E aproveite o lixo que todo mundo diz,

e biodiz:

faça a sua usinauguração.

Experimente essa composterapia.

No fundo do poço

tem subsolo,

faça do pavor

o destempero da vida.

Reciclomeça.

Deixe o carro

e pedalalma.

E assim vai estar bem

onde quer que você flor.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Plano de Saúde e Perpetuação do Indivíduo

Finalmente, com o sucesso da reposição artificial de neurônios, o tratamento contra a degeneração definitiva do organismo humano ficou completo. Associada ao transplante dos principais órgãos do corpo, incluindo o coração, e às plásticas de rotina, a reposição neural rompeu o último obstáculo anteposto à perenidade da vida individual: a senilidade.

Para o cidadão comum de classe média, bastava despender de 30 à 60% do salário com o pagamento do Plano de Saúde e Perpetuação do Indivíduo, para que, além de ter cobertas as consultas e demais banalidades hospitalares, garantisse, a cada 65 anos, o tratamento completo de reabilitação do organismo, com a reposição e os transplantes já citados. O alto custo do plano acabava por ser parcialmente amortizado, uma vez que o cidadão e a empresa deixavam de arcar com os custos previdenciários, pois não havia mais necessidade de aposentadoria.

Como o funcionário que não se aposentava custava menos às empresas, elas passaram a estimular com vantagens financeiras e de carreira os funcionários que optassem pela perpetuidade.

Aqueles poucos que optaram por continuar se aposentando - e morrendo - não conseguiram mais empregos, e a opção pela perpetuidade acabou por ser amplamente adotada.

Com o decorrer de algumas gerações, devido ao aumento de população, a fronteira dos países em que predominavam os perpétuos teve que se expandir sobre amplas regiões do terceiro mundo.

Décadas mais tarde, foram urbanizadas regiões antes desabitadas ou pouco povoadas – a Amazônia, florestas e savanas Africanas, vastos campos da Ásia, o deserto Australiano e seu complexo insular, além de parques, reservas e demais regiões pouco habitadas no interior dos países.

Apesar do sucesso da ampliação do espaço urbanamente desenvolvido, que já ia ocupando os derradeiros recônditos do planeta, a falta de espaço para os seres humanos perpétuos ainda não estava em vias de ser sanada,e situação era piorada pela diminuição das áreas litorâneas, sistematicamente engolidas pelo mar, devido ao derretimento do gelo polar. Além disso, as populações não perpétuas ainda ocupavam muito espaço.

Mesmo com a extinção das últimas populações que não tinham acesso ao Plano de Saúde e Perpetuação do Indivíduo, e que ainda persistiam em regiões subdesenvolvidas do leste da África e na Ásia central, o problema de espaço persistia, pois a população de seres humanos perpétuos, obviamente, só crescia - e perpétuo, naquele momento, era a condição de absolutamente todos os habitantes da Terra .

Foram especuladas novas soluções para o problema, uma vez que as velhas - super-verticalização das construções, uso extensivo do sub-solo, aterramento sistemático do mar, entre outras, já não bastavam.

Foi então que veio à tona, como não podia deixar de ser, a possibilidade do ser humano perpétuo voltar a morrer. A idéia apavorou principalmente as novas gerações, que tinham exíguo contato com a morte humana, uma vez que haviam nascido depois da extinção das últimas populações não perpétuas, e que além disso muito raramente tinham notícia de mortes acidentais, já que a medicina era eficaz na grande maioria dos casos.

Mesmo entre as gerações mais antigas, a idéia foi repudiada, e aquela primeira geração, que de condenada à morte, trabalhou o dobro pela própria perpetuidade, desacostumada com a idéia de morrer, se negou a corroborá-la.

Mas como a situação havia chegado realmente no seu limite – não cabia mais ninguém em lugar algum - foi decidido que se proibisse a concepção de novos seres humanos. Como houvesse veementes protestos daqueles e daquelas com aflorado instinto de paternidade ou maternidade, retificou-se a decisão, e foi permitida a concepção da nova geração, com a condição, no entanto, de que não tivesse acesso à perpetuidade.

A nova geração foi concebida e a população perpétua assistiu seu fim, tendo sido, inclusive, por duas ou três décadas, fisicamente mais jovens que seus próprios filhos.

A população perpétua, desabituada à morte, teve que passar pelo trauma de voltar a conviver com ela. Pior: tratava-se da morte de seu filhos. Enfrentou ainda o profundo ressentimento dos filhos-anciãos que, antes de partir, acusavam seus pais de terem invertido a ordem natural das coisas, fazendo com que as novas gerações perecessem enquanto as velhas permaneciam.

Por medo dessas acusações, não foi concebida mais nenhuma geração. O desemprego gerado pela falência de todas as empresas que dependiam do público infantil aprofundou as crises sociais, naquela década.

Mas veio o período de reacomodação econômica, acontecida não sem duros percalços, e a população perpétua do planeta passou a desfrutar (apesar da palavra desfrutar, não existiam mais frutas) de uma certa estabilidade.

Estabeleceu-se, sem maiores problemas, um contínuo trabalho de aterramento do mar, garantindo que, se não se ganhasse nenhum espaço, pelo menos não se perdia mais nenhum. Como havia terra e pedra nas grandes montanhas suficiente para mais 300 anos de aterramentos, segundo especialistas, não havia a necessidade de fazer buracos dentro do perímetro urbano, e admitiu-se que a situação não ia mal.

Desde que se estabelecera como rotineira a produção industrial em larga escala do hidrogênio nuclearmente modificado que agora servia de alimento (o único) ao ser humano, tão pouco o problema da fome assolava mais do que antes a população da Terra. Havia, é claro, alguma saudade dos alimentos de outrora, sentida pelas gerações mais antigas e não compartilhada pelas novas.

Histórias, enfim, diziam os mais novos, que não serviam para abalar o indivíduo perpétuo e a homogeneidade físico-biológica (todos aparentavam 45 anos) que se estabelecera definitivamente para todos os cidadãos; e também certa estabilidade social, não menor do que aquela do longínquo... ano 2001, por exemplo.

A nostalgia, quiçá, era o único problema daquela parte da população já referida, nostalgia não só dos alimentos mais variados, mas dos bichos que antes existiam, das plantas, do céu visível, das crianças, dos rios e matas, dos cemitérios, das paias, das montanhas, e de uma certa sensação de movimento que havia no ir e vir - das gerações atravessando o tempo, das crianças atravessando o corredor das casas.

Nenhuma nostalgia, nenhuma falta de espaço, nenhuma ameaça do derretimento dos pólos, nenhuma saudade das crianças, dos bichos ou plantas, nada, em suma, foi tão exasperante para o ser humano perpétuo, quanto duas coisas:

A impossibilidade de mudar as coisas, exceto pela morte.

O medo da morte.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Brincadeiras da semana

"O que é breve e bom,
é duas vezes bom"
Hugh White


Gente, essa coisa de geléia,
a morte no fim como uma pedra,
na cabeça, terra sobre tera,
louça sanitária semi-enterrada,
de vez em quando uma flor.



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Tocado displicentemente,
pairam no ar o jarro e a dúvida.
Aquele pêgo no ar:
Malabarismei?



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Terça-feira
Absolutamente mais um dia
E constatamos que a vida passa.



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E agora, senhoras e senhores, a poesia mais curta e mais profunda jamais vista:

"Cu"




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Poesia curta parece coito interrompido.
Um soneto pelo menos, meu amor,
enquanto eu tiro os sapatos.



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E já que falamos de soneto....


Tanto do meu estado me acho incerto,
que em vivo ardor, tremendo estou de frio,
sem motivo, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco, e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto,
do peito me sai um fogo, da vista um rio
agora espero, agora deconfio,
agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando,
numa hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos, não possa achar uma hora.

E se alguém me pergunta por que assim ando,
respondo que não sei, porém suspeito
que só porque vos vi, minha senhora.

Camões


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Diálogo:

- Quem Castrou Alves?
- Machado de Assis.
- Como ele castrou?
- Camões.
- ...
- Essa não é minha, Eça é de Queiroz.



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O soneto clássico tem essa forma, com a mesma quantidade de sílabas poéticas em cada verso (o que dá o "ritmo" dos versos), e com esse esquema de rimas. Essa forma não é usada à toa - é que fica fácil memorizar um soneto, funciona quase como uma canção. Tanto que esse aí de cima, eu não precisei abrir um livro para escrevê-lo - havia decorado uns 7 anos atrás, e não esqueci mais. Ao escrever, tive dúvidas, mas o interessante é que o próprio esquema do soneto ajuda a lembrar e tirar as dúvidas - se não der a rima ou o ritmo, não tá certo - e assim, acertando os detalhes, encontram-se as palavras, e refaz-se o soneto original.

Pode ser que eu tenha me enganado em alguma palavra, mas, se obedeci a métrica, o ritmo e as rimas, será que fará tanta diferença? Mas duvido que eu tenha achado outras soluções para um soneto genial desse.

Poesia feita e refeita, hoje - viva o repentista Camões.



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"O que é bom,
que seja bom do tamanho que quiser.
Viva o exagero"
Katarina Tchitcholina


"Brincando também se faz filho"
Mãe


domingo, 26 de agosto de 2007

Poesia da Semana

Por acaso se encontra um bloco na rua.

Segue-se.

Cantam aquela que você gosta tanto,

você solta a garganta

e ela cai e se espalha pela rua,

escorre até as calçadas,

sobe pela parede das casas.

Na janela uma senhora sorri.


Você estranha,

pois não havia reparado antes

no desenho colonial

dos azulejos daquela balaustrada.


O batuque esquenta,

a bolsa da mão virou chapéu,

você perdeu as alpercatas,

a camisa virou uma capa.

Você molhou o bico

com os últimos dois reais da carteira.


Mas não são reais,

são mil-réis.


Agora você viu

que sua calça foi feita de saco de açúcar.

Esse domingo é muito mais domingo,

você pensa,

para quem trabalha forçado.


Perdura um nervosismo geral

de certa recente invasão holandesa.


Agora a cidade é assim:

escorre gente pela canaleta dos becos

na trilha semi-certa dos cordões,

francesas descem de carros negros

e se deslumbram das portas dos hotéis,

um rio limpo corre

dividindo a avenida central,

o poeta de chapéu escreve

no guardanapo do café,

ouve-se ao longe o acorde dissonante

da freada do bonde,

um sino repica ,

anuncia-se a quermesse,

se desfaz a novena,

renova-se o discurso,

e esquenta a função,

interrompida pela algazarra dos capoeiras monarquistas,

e tome cavalaria,

fujam para a roda do mato em volta.

É mesmo a sua cidade do seu país,

agora sim você reconhece.


Eis que surge a mascarada.


É claro que essa mascarada só pode

preferir brincar com você,

que veio do tempo das canções,

que nada quer,

tudo faz e não sabe quando vai,

não acha nada

mas está sempre acabando de se apaixonar.


E você canta,

dos seus olhos refletidos

em outros olhos pela

sua dela boca

canta,

você sabe

que não sabe

de quem boca é que

canta,

lábio-mar, rio cordão

por onde for é gente e mais gente sempre só se

canta.


Até que antes do primeiro risco vermelho aparecer no céu,

um risco vermelho

diante dos seus lábios

se desdobra

pelos lábios dela.


Se desfazem os cordões,

o rio volta a ser algo indizível.

Surge um shopping.


Agora,

só ano que vem.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Poesia da Semana

Boi pra lá

Boi pra lá,
boi pra cá.
Boi pra lá,
boi pra cá.
Dorme neném,
olha o pasto,
olha o rio,
olha o trem.

Boi pra lá,
boi pra cá.
Dorme neném,
olha o rio,
olha o trem,
olha o pasto.

Uma flor.
Outra flor.

Cor, ô, neném,
uma flor,
outra flor
e mais cem,
boi lá trem
rio mais flor
dorme pasto,
neném.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Poesias da Semana

Ela murmurou
um sonho
pra gente,
espremeu contradições
da sua garganta.

Deixou o quarto em seus olhos
à meia-luz...
entramos.
Roupas jogadas no tapete,
a voz deitada num colchão.

Seu ritmo era um contra-senso,
cabiam dezessete palavras em cada tecla
do piano que corria atrás dela.
Ela cantava ímpar.

E era exatamente o que a gente
precisava sentir:
essa força toda
de um instante sem nada,
essa meia-luz concentrada,
esse prato cheio de falta.

Tinha saliva naquelas palavras
a gente sentia a língua
que aqui e ali se esbarrava.

Uma meia de lã
calçando o pé do ouvido,
um cotonete amoroso.

Ela cantou
e em nós
doeu
gostoso.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

A Você

A você estas linhas
para escutar
na voz acetinada de um velho locutor
vinda no ruído molhado de chuva
de um rádio entrando no chiado
d´alguma sintonia.

A você (por que não?) esta poesia
que não pode perder o ritmo de contraponto
do naipe dos metais,
leia quase sem querer,
só porque talvez tenha lhe pego
num momento,
um daqueles momentos que é sempre
o momento que a gente quer ter.

Como quando o disco de vinil acaba
e a agulha insiste em transmitir o som
da última faixa apagada,
escute estas palavras
que fazem nada mais que
nos rodear,
na valsa que nunca acaba dos velhos bailarinos,
na voz de gramofone do cantor de balada
que parece tanto que realmente sofre.

A você, por fim,
que não acha nada,
que não duvida,
que não merece:
ouça o último fio desse momento simples,
e que seja tudo agora.
Que depois
a gente esquece.