quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Poesia da Semana

Quase como o que não queria
a chuva
um barulho só

O pó sumiu
ser tão amada
e ir
como quem só

Desembucha !

1. Essa eu acabei de fazer.
Duas horas rolando na cama: pensei,
escrevi, me irritei - tanta coisa - veio
essa chuva de um barulho só.
Por fim, era isso:
eu e a chuva.
Mais uma vez.

2. Não, as outras poesias daqui eu não havia feito
no dia que em que coloquei no
blog. Foi uma ou outra. A maioria é do arquivo.

3. Afinal, não é sempre que chove.

4. A propósito - imagine o sertão. Agora figure uma chuva lá no sertão: as crianças
brincando nas poças, calor, calor, até os adultos fora de casa - alguém pensando em
se esconder da chuva? Alguém pensando qualquer coisa que fosse? Só a chuva e a terra quente, e o sol de vez em quando, e as pessoas sem poder entender nem conter isso, uma chuva
grossa e desabotoada, depois de 10 meses sem chover. Até um arco-íris. O mistério
do sertão é a chuva. Pense.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Poesias da Semana



Um dia

Passei por uma poesia

- era uma rua.

Lembrei por causa de um pedaço

de papel parado na sarjeta.

Depois o vento mexeu um pouco pro lado.

O meu irmão passava a mão no meu cabelo assim.


Passei por ela,

a pele grossa de concreto,

olho piscando

pela luz quebrada dos postes.


E como uma descoberta

que sempre esteve ali um pouco,

como um carinho e uma aspereza da rua ,

vou dizer rapidinho

que ali tinha alguém.


(Quase não se enxerga

na rua a pele grossa,

a pessoa é saliência

na calçada ou poça.


Quase não se enxergam

a pessoa e poças,

a calçada é saliência

da rua e pele grossas.)


Quem passa pela rua

e por aquela pessoa

pára um pouco para sempre em poema

que o passo seguinte esvai à toa.

sábado, 20 de outubro de 2007

Texto da semana

shshshshsh... dizia a casa de Plínio, quando entrou . Como que forrada pelo carpete desse som, esse shshsh, esse chiado contínuo, que depois ele percebeu que era o chiado da panela de pressão. Mas não era só dela, pelo menos para Plínio na sua memória de coisas e afetos,esse som remetia a uma atmosfera que ocupava o seu pensamento, como que embalando-o, como se fosse possível mergulhar nesse som, mergulhar... mergulhar ... .mergu ...mer....mar! Era isso – era esse também o som do mar, tanto um enorme rumor, tudo dominando tonitroando ao fundo, perene; quanto uma delicadeza de dedos a se esfarinhar “chuá! shshs....” leve, se espalhando pela areia, virando já espuma e sumindo ao se espalhar....

Era definitivamente um som que ocupava um lugar em sua vida, era um chiado da sua existência, que fazia falta sem ele saber, quando não havia, era um som da sua vida. Ah, esse som do mar, espumando...e esse som e esse prazer de mergulhar, esse salgado pra lá e pra cá que enjoava gostoso do mar, como que deixando bêbado....Opa! esse som era som da lata shshs – tlact! ao se abrir, e gluglu, a cerveja, a espuma desaparecendo ao som do mesmo shshs...a cerveja lá, esperando só, a chiar, para tomar e mergulhar naquela sensação. Sempre que mergulhava no mar pensava naquela outra delícia: cerveja, amigos, e deitado na areia, quando a onda vinha a lavar-lhe pelos pés até a cabeça e escorrendo quase leva-não-leva a lhe levar, era a doçura da noite entrando, e moças, e conversas, e aquela empolgação de conversa de bar, que soluciona as mazelas do mundo, a rir e emendar. E tome uma, e mais outra.

Esse som, esse chiado, era o prazer sempre procurado, como uma chuva de algodão, algo a lhe estufar a vida, o em volta do ar. Mas tinha mais.

A panela de pressão, o almoço chegando, o cheiro do feijão! Era essa a sensação: de ter pai e mãe, e comida na mesa todo dia, e alguém querendo sempre que ele comesse...

Ser criança !

E até o xixi – shshsh....também a espumar – sensação boa, o último alívio. Esse chiado, sempre presente na sua vida, era o da casa da sua infância, que Plínio esteve sempre, e estaria sempre, o resto da sua vida, a procurar, a querer para rechear sua vida.

De repente, Plínio, num insight, se reviu ainda antes da sua meninice, Plínio se viu bem pequeno, quase neném. Um tempo em que ele – ele mesmo, esse marmanjão de agora, era pequenininho, todo bonitinho. Teve a nítida sensação do que foi, pra ele, ser essa criançinha de dois anos: amada.

A inocência, puro, puro..... a total dependência e confiança dos pais, o colo e a pele e o cheiro da mãe, o choro e o riso na ponta dos olhos, sempre prontos, como se seus olhos estivessem sempre úmidos, e todos em volta, vendo aquela crinça (ele! a mesma pessoa que ele é agora!), todos sorrindo e achando ele muito lindinho, muito querido mesmo, querido desta maneira: ele dava a todos vontade de pegá-lo, amassá-lo, beijá-lo, e trazer ao colo num carinho.

E, de repente, ele, Plínio agora – em seu insight ele pode sentir claramente isso: “eu perdi minha inocência.” Olhou pras próprias mãos, e viu as mãozinhas suas, que foram, que são. E correu, porque quando criança corria mesmo, realmente com todos os bofes pra fora e sem pensar no coração, e nunca pensava, como agora, “vou ficar cansado?”. E como não tinha mais mãe, correu de braços abertos e gritou “mãe!”, era assim que fazia quando ela chegava do trabalho, não tinha mais a inocência necessária para essa corrida, esses braços abertos, esse chamado pela mãe: fora isso que perdera.

Quando deu por si novamente, chorava, era um adulto todo dobrado, largado como uma bolsa vazia, no chão, aos soluços.

E quando passou a crise do choro, e se acalmou um pouco, foi como um consolo, um afago....desse afago então pôde finalmente perceber da onde vinha aquele som primordial, entendeu da onde vinha o conforto daquele forro, aquele cetim macio ocupando todo o espaço, a fazer shshshshshsh....preenchendo seu cansaço: o primeiro som, mãe de todos os outros, o primeiro chiado ouvido.

Era sua mãe, estreitando sua cabeça no peito, passando a mão pelos seus cabelos, a fazer shshshs....o dedo em pé na frente dos lábios fechados....pedindo siêncio - “dorme, meu filho” – e a cabeça afundada no peito dela, a mãozinha segurando a alça do vestido.

sábado, 13 de outubro de 2007

Texto da semana

Ia começar a partida, e o mundo estava parado. Ali tudo de mim dependia, e um gol era um cuspe bem dado, o mundo solucionado.

Quando eu jogava bola, eu sabia que eu podia, eu colhia com minhas pernas. Quando a bola vinha - ali sim era só eu e a bola, e quanto mais tempo eu ficasse com ela mais tempo eu respirava, era como voar, pelo tempo que dá pra ficar debaixo d´água, e as brechas do campo iam se sucedendo como bolhas de ar, como atalhos, frinchas por onde a água ainda podia escorrer. Era capinar naquele mato de pernas, no final dava certo, indo atrás da direção da ponta do nariz, a gente apostava na rebatida, e se houvese o milagre duma trave que nos interrompia, era um brilho aquele estouro de trave, a gente insistia, até que a rede banhava a bola - um fruto da nossa jogada, e a alma se encharcava. Eram dois tijolos em cima da terra, era gol, e o estádio em peso vibrava.

Quando eu jogava bola e alguém me chutava, era doce esse inimigo, pois eu via que era copa do mundo e era comigo.Quando eu jogava bola, e alguém exclamava, a gente via que tinha torcida e comemorava.

Até que um dia eu pulei dentro do gol, parei de ser quem mandava, eu era mandado e rolava e voava, e a quem pensasse que eu lhe obedecia, eu rolava mais ainda, e o próprio redondo da bola logo prevalecia, pois nunca se sabe onde termina uma volta, e sempre começa outro dia.

Outro dia, aliás, eu vi: era a mesma rua, o mesmo campo, a mesma lama, o mesmo tanto. Como a casquinha do machucado no joelho, nunca cicatrizado, havia um menino, eu havia voltado – ia começar a partida, o mundo estava parado. Ali tudo de mim dependia, e um gol era um cuspe bem dado, o mundo solucionado.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Poesia da Semana

Reciclomeça a vida.

Você não precisa nada,

só sua energia herólica.

Dessa merda de vida,

retire esterco e coragem.

E aproveite o lixo que todo mundo diz,

e biodiz:

faça a sua usinauguração.

Experimente essa composterapia.

No fundo do poço

tem subsolo,

faça do pavor

o destempero da vida.

Reciclomeça.

Deixe o carro

e pedalalma.

E assim vai estar bem

onde quer que você flor.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Plano de Saúde e Perpetuação do Indivíduo

Finalmente, com o sucesso da reposição artificial de neurônios, o tratamento contra a degeneração definitiva do organismo humano ficou completo. Associada ao transplante dos principais órgãos do corpo, incluindo o coração, e às plásticas de rotina, a reposição neural rompeu o último obstáculo anteposto à perenidade da vida individual: a senilidade.

Para o cidadão comum de classe média, bastava despender de 30 à 60% do salário com o pagamento do Plano de Saúde e Perpetuação do Indivíduo, para que, além de ter cobertas as consultas e demais banalidades hospitalares, garantisse, a cada 65 anos, o tratamento completo de reabilitação do organismo, com a reposição e os transplantes já citados. O alto custo do plano acabava por ser parcialmente amortizado, uma vez que o cidadão e a empresa deixavam de arcar com os custos previdenciários, pois não havia mais necessidade de aposentadoria.

Como o funcionário que não se aposentava custava menos às empresas, elas passaram a estimular com vantagens financeiras e de carreira os funcionários que optassem pela perpetuidade.

Aqueles poucos que optaram por continuar se aposentando - e morrendo - não conseguiram mais empregos, e a opção pela perpetuidade acabou por ser amplamente adotada.

Com o decorrer de algumas gerações, devido ao aumento de população, a fronteira dos países em que predominavam os perpétuos teve que se expandir sobre amplas regiões do terceiro mundo.

Décadas mais tarde, foram urbanizadas regiões antes desabitadas ou pouco povoadas – a Amazônia, florestas e savanas Africanas, vastos campos da Ásia, o deserto Australiano e seu complexo insular, além de parques, reservas e demais regiões pouco habitadas no interior dos países.

Apesar do sucesso da ampliação do espaço urbanamente desenvolvido, que já ia ocupando os derradeiros recônditos do planeta, a falta de espaço para os seres humanos perpétuos ainda não estava em vias de ser sanada,e situação era piorada pela diminuição das áreas litorâneas, sistematicamente engolidas pelo mar, devido ao derretimento do gelo polar. Além disso, as populações não perpétuas ainda ocupavam muito espaço.

Mesmo com a extinção das últimas populações que não tinham acesso ao Plano de Saúde e Perpetuação do Indivíduo, e que ainda persistiam em regiões subdesenvolvidas do leste da África e na Ásia central, o problema de espaço persistia, pois a população de seres humanos perpétuos, obviamente, só crescia - e perpétuo, naquele momento, era a condição de absolutamente todos os habitantes da Terra .

Foram especuladas novas soluções para o problema, uma vez que as velhas - super-verticalização das construções, uso extensivo do sub-solo, aterramento sistemático do mar, entre outras, já não bastavam.

Foi então que veio à tona, como não podia deixar de ser, a possibilidade do ser humano perpétuo voltar a morrer. A idéia apavorou principalmente as novas gerações, que tinham exíguo contato com a morte humana, uma vez que haviam nascido depois da extinção das últimas populações não perpétuas, e que além disso muito raramente tinham notícia de mortes acidentais, já que a medicina era eficaz na grande maioria dos casos.

Mesmo entre as gerações mais antigas, a idéia foi repudiada, e aquela primeira geração, que de condenada à morte, trabalhou o dobro pela própria perpetuidade, desacostumada com a idéia de morrer, se negou a corroborá-la.

Mas como a situação havia chegado realmente no seu limite – não cabia mais ninguém em lugar algum - foi decidido que se proibisse a concepção de novos seres humanos. Como houvesse veementes protestos daqueles e daquelas com aflorado instinto de paternidade ou maternidade, retificou-se a decisão, e foi permitida a concepção da nova geração, com a condição, no entanto, de que não tivesse acesso à perpetuidade.

A nova geração foi concebida e a população perpétua assistiu seu fim, tendo sido, inclusive, por duas ou três décadas, fisicamente mais jovens que seus próprios filhos.

A população perpétua, desabituada à morte, teve que passar pelo trauma de voltar a conviver com ela. Pior: tratava-se da morte de seu filhos. Enfrentou ainda o profundo ressentimento dos filhos-anciãos que, antes de partir, acusavam seus pais de terem invertido a ordem natural das coisas, fazendo com que as novas gerações perecessem enquanto as velhas permaneciam.

Por medo dessas acusações, não foi concebida mais nenhuma geração. O desemprego gerado pela falência de todas as empresas que dependiam do público infantil aprofundou as crises sociais, naquela década.

Mas veio o período de reacomodação econômica, acontecida não sem duros percalços, e a população perpétua do planeta passou a desfrutar (apesar da palavra desfrutar, não existiam mais frutas) de uma certa estabilidade.

Estabeleceu-se, sem maiores problemas, um contínuo trabalho de aterramento do mar, garantindo que, se não se ganhasse nenhum espaço, pelo menos não se perdia mais nenhum. Como havia terra e pedra nas grandes montanhas suficiente para mais 300 anos de aterramentos, segundo especialistas, não havia a necessidade de fazer buracos dentro do perímetro urbano, e admitiu-se que a situação não ia mal.

Desde que se estabelecera como rotineira a produção industrial em larga escala do hidrogênio nuclearmente modificado que agora servia de alimento (o único) ao ser humano, tão pouco o problema da fome assolava mais do que antes a população da Terra. Havia, é claro, alguma saudade dos alimentos de outrora, sentida pelas gerações mais antigas e não compartilhada pelas novas.

Histórias, enfim, diziam os mais novos, que não serviam para abalar o indivíduo perpétuo e a homogeneidade físico-biológica (todos aparentavam 45 anos) que se estabelecera definitivamente para todos os cidadãos; e também certa estabilidade social, não menor do que aquela do longínquo... ano 2001, por exemplo.

A nostalgia, quiçá, era o único problema daquela parte da população já referida, nostalgia não só dos alimentos mais variados, mas dos bichos que antes existiam, das plantas, do céu visível, das crianças, dos rios e matas, dos cemitérios, das paias, das montanhas, e de uma certa sensação de movimento que havia no ir e vir - das gerações atravessando o tempo, das crianças atravessando o corredor das casas.

Nenhuma nostalgia, nenhuma falta de espaço, nenhuma ameaça do derretimento dos pólos, nenhuma saudade das crianças, dos bichos ou plantas, nada, em suma, foi tão exasperante para o ser humano perpétuo, quanto duas coisas:

A impossibilidade de mudar as coisas, exceto pela morte.

O medo da morte.