segunda-feira, 2 de maio de 2011
Visita
de Adélia Prado.
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Desembuxa!
Poesia da Semana
Ela murmurou
um sonho
pra gente,
espremeu contradições
da sua garganta.
Apagou a luz
do quarto em seus olhos.
Entramos.
Roupas jogadas no tapete,
a voz deitada num colchão.
Seu ritmo era um contra-senso,
cabiam dezessete palavras em cada tecla
do piano que corria atrás dela.
Ela cantava ímpar.
E era exatamente o que a gente
precisava sentir:
essa força toda
de um instante sem nada,
essa meia-luz concentrada,
esse prato cheio de falta.
Tinha saliva naquelas palavras
a gente sentia a língua
que aqui e ali se esbarrava.
Uma meia de lã
calçando o pé do ouvido,
um cotonete amoroso.
Ela cantou
para sorte
da nossa dor.
domingo, 27 de março de 2011
Caneta bic e papel sulfite
que saudade!
Esta mão que se dissolve
em tinta azul
no traço da primeira palavra
Este verso,
como não sei de onde veio,
deve ser eu mesmo inteiro
em duas linhas no papel.
Lembro:
tive treze anos de idade pela primeira vez
num papel em branco.
Tem palavras que desde então me acompanham,
“sarjeta” ficou para sempre sentada na sarjeta
da rua da minha casa,
“azul misturado com amarelo dá verde”
é uma foto das palavras
que tanto eu vi, na minha infância.
O “tropeço” caiu no corredor da memória,
casquinha de machucado grossa como sarjeta,
eu lembro,
a luz do poste piscando pelos meus olhos,
tão familiar essa iluminação pública,
mora desde criança dentro da minha cabeça,
parece que a rua de casa me pariu,
rachando bem ao meio seu asfalto,
a cor do asfalto, a cor do céu, a cor das árvores.
Eu vim dessa palavra cansada do meu pai,
eu sou o medo de ficar sozinha
que a minha mãe sentia,
que a minha mãe ainda sente,
eu sou meu irmão, se atrasasse.
Ah!, tentei me espalhar, sendo outros,
mas são sempre estranhos,
é como ver carro estrangeiro,
familiar e redondo só mesmo um fusca.
Quero mesmo é estar em casa
e só volto pra lá
quando fecho os olhos.
Poesia da Semana
Que aliás é e sempre foi a melhor maneira que sempre pudemos nos arranjar nesse espaço apertado, pois nessa posição, apesar de esmagados entre cama e teto, podemos nos olhar frente à frente, ela sustenta o seu peso apoiando as mãos sobre o meu peito e eu pego seus seios com minhas mãos, como se perscrutássemos os corações por debaixo da pele.
Como se disséessemos um ao outro este complicado verbo - perscrutar – e ainda muitos outros – perscrutássemos - com suas dezenas de conjugações em diversos tempos e posições. Entrando nos substantivos e deixando-os entrar, experimentando o gosto de adjetivos superlativos deliciosíssimos e gostosérrimos. E ao invés de entender os significados das palavras, sentíamos na boca o gosto delas.
Ou como se chuvesse: com todos os detalhes e possibilidades da chuva, da gota ao dilúvio, inclusive nos sendo por vezes salpicada a novidade rápida e lâmina de luz do corisco, sendo-nos também possível aspirar o perfume verde-brilho de musgo umedecendo na fresta entre dois galhos redondos de onde desaborcha uma estranhíssima orquídea oculta sob as grandes camadas e as pequenas camadas abertas de par em par por um leve toque de Pã.
Ou como se fôssemos atingidos por um raio: eletricidade que não nos mata de imediato, mas que espalha pelos corpos sua megavoltagem que se compartilha antes da morte... mas que de alguma forma isso fosse bom.
Ou como se fôssemos....ou como se....ou como... ou.....
Até o fim, nos metendo por dentro dessas metáforas, cada vez mais fundo, até chegarmos exaustos a um grito que significa grito e um gozo que significa gozo.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Poesia da Semana
Vou ser direto e dizer
tudo numa única palavra:
eu te amo muito muito
para todo o sempre
e todos os infinitos.
Chega de me enrolar, eu quero
uma resposta definitiva mesmo que
não seja assunto encerrado pois
o homem sempre se agarra
a uma última esperança.
Cansa esperar e eu esperei
muito mas portanto
não estou cansado até
parece que acordei agora
para este amor.
Eu estou disposto a tudo
com toda a violência
que eu nunca seria
capaz de fazer mal à você.
É mentira o trabalho
na cartomante eu lhe devolvi
a foto e nunca consegui
pedacinho da sua unha – a inveja
quer acabar com o nosso amor.
É mentira o que a irmã da
sua amiga disse sobre eu
de conversa com a Jurema
na quermesse – a inveja
quer acabar com o nosso amor.
É mentira que eu voltei a fumar
depois do último porre por causa
da depressão depois da absitinência
dos remédios – a inveja
quer acabar com o nosso amor.
Por favor diga sim ou não.
Ou talvez
- também pode me dar
a resposta depois.
Meu sonho é você gorda
na cozinha da casa em que
a gente vai morar – eu quero
mesmo é você gorda pois
é mais de você para amar.
Eu briguei ontem na rua
por você e saiu sangue vermelho
vermelho da cor do coração
com borda luminosa que eu
comprei para lhe dar como
prova absoluta do meu
divino amor.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
poesia da semana
asas abertas
sobre um
precipícaro.
Mas antes do voo,
do sonho abismal,
do mar com suas lágrimas,
seu longe e seu sal
Há um pai,
solidão de ilha
e um filho.
Quanto deste gesto
é lamento:
no céu
afagar o sol
ou o afã
do afogamento?