quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
poesia da semana
asas abertas
sobre um
precipícaro.
Mas antes do voo,
do sonho abismal,
do mar com suas lágrimas,
seu longe e seu sal
Há um pai,
solidão de ilha
e um filho.
Quanto deste gesto
é lamento:
no céu
afagar o sol
ou o afã
do afogamento?
domingo, 6 de setembro de 2009
Poesia da Semana
Quase não se enxerga
na rua a pele grossa,
a pessoa é saliência
na calçada ou poça.
Quase não se enxergam
a pessoa e poças,
a calçada é saliência
da rua e pele grossas.
Negro, negro, negro
Como a luz do sol
Arco-íris no asfalto
Mancha de óleo no farol
Negro, negro, negro
Como a luz do sol
Mancha de óleo no asfalto
Arco-íris no farol.
Desembucha !
domingo, 5 de julho de 2009
Poesia da Semana
dentro do Brasil funil
se escondem-se várias palavras.
Vai que talvez venham da pedra
dum bloco maciço, chapadisso,
que se arvora a ser parado
em sendo sempre ali:
reluzindo seco.
Um baú de guardados
donde nasce vocabulário
e não só modos, modismos
- coisas além dos ritmos -
lá há radicais raríssimos.
Recôndito.
Diamantismos.
Novas formas de ser negro
(que liberdade imensa escrever)
brinquedo sempre novo brinquedo
pedra quadrada paredões imensos
feito jogo de montar
Quebra-cabeça de idéias
e de formas naturais
(deixei meu coração lá)
a vida nova grande imensa
como a da fumaça
rasgando o meu peito
abrindo-se
placa tectônica
vale.
Lá pude ver as placas tectônicas
a terra desabrocha
nos seus ardumes interiores
- os rios!
Os rios.
Até agora falava de pedras
os rios me dão imediatamente vontade de chorar
pois é como se as lágrimas
pudessem ter cor
e eu pudesse chorar azul,
como se de um rosto
escorresse uma lágrima
de um translúcido amarelo-âmbar.
E tudo isso tem a ver com negro.
É tudo negro
descaradamente negro
são negras
produzindo todas as cores
descobrindo áfricas
cores
nos detalhes ensolarados
cores
novas estruturas
cores
segredos compreendidos
cores
mecanismos de África
cores.
domingo, 28 de junho de 2009
Poesia da Semana - Versão
Parem todos os relógios, que os telefones sejam cortados,
Dêem um osso suculento para o cachorro parar de latir,
Silenciem os pianos e com tambores abafados
Tragam o caixão, deixem os que sofrem vir.
Deixem aviões gemendo e sobrevoando nossos chapéus
Rabiscando a mensagem “Ele está morto” no céu
Coloquem arcos de crepe em volta do pescoço branco das pombas,
E luvas de algodão pretas para os policiais em sua ronda.
Ele era meu Leste, meu Oeste, meu Norte e meu Sul
Minha semana de trabalho e um domingo azul
Meu meio dia e meia noite, minhas conversas e as canções que escutei
Eu pensei que o amor durasse para sempre: eu me enganei
As estrelas não são mais necessárias, podem tirá-las,
Deixem que o sol se desmanche e a lua podem apagá-la,
Esvaziem o oceano e varram a floresta
Porque agora de bom nada mais resta.
Versão de Guga Cacilhas para a Parte I de "Two Songs For Hedli Anderson - W.H. Alden
TWO SONGS FOR HEDLI ANDERSON
in
Selected Poems of W.H. Auden
by W. H. Auden
Vintage
I
Stop all the clocks, cut of the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes cricle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.
The stars are not wanted now; put out every one:
Pack up the moon and dismantel the sun;
Put away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.
Leia a parte II em poets.org
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Poesia da Semana
antes do peixe
me senti por um momento apto
ao ato desta captação:
entre eu e você etrevisto
ou que não existe, mas insisto,
entre você e eu, concebido.
Se é sutil na vida
que dirá entre bits ?
Acredite.
Acho que você até já disse,
elas sempre sabem antes,
seus mapas tem mais alcance,
quem enxerga linhas do destino
são ciganas, não ciganos...
Mas desiste,
se procura saber e só, somente.
O que tem fim se desmente
e eu comecei antes do início - lembra?
Estranho e relapso,
este fato,
só sugestionado
como um gato pardo
de relance
entrevisto
de instante em instante
Com Sono
dá as vezes sem querer esse negócio em mim:
é tipo um fenômeno mesmo.
Eu falo as palavras devagar e elas se materializam na minha
boca, dá vontade de mastigar.
Na verdade eu mastigo, não é matafórico, eu sinto é físico
na minha boca. É gostoso - tem haver com estar com sono, eu acho.
Consegui provocar a sensação, pensei que não conseguiria,
tem palavras melhor de comer, que são massudas, comi
"pantomima" agora, é boa. Pensei que "pudim" seria boa,
mas não, acho que essa sensação não gosta de ser óbvia.
"Óbvio" é bom também, mas fica um pouco magro no final,
- é óbvio.